MARTINHO LUTERO - A REFORMA PROTESTANTE
"É preciso exortar os fiéis a entrarem no céu por meio de muitas
tribulações, em vez de descansarem na segurança de uma falsa paz" 95ª tese.
Há 478 anos, no dia 31 de outubro de 1519, Martinho Lutero fixou suas
famosas teses (total de 95) contra a venda de indulgências, na porta da Igreja
Católica do Castelo de Wittenberg, na Alemanha, contrariando os interesses
teológicos e, principalmente, econômicos da Igreja Católica. O impacto foi
tamanho, que se comemora nessa data o início da Reforma Protestante.
Lutero não foi, como alguns pensam, o fundador de uma nova religião, o
protestantismo. A Reforma Protestante, da qual foi impulsionador, foi além do
movimento da libertação nacional, que resultou na formação de igrejas nacionais
entre os anos de1517 a 1563. Foi, sem dúvida, o grande precursor da liberdade
religiosa atual e quem mais contribuiu para um retorno do cristianismo às
Escrituras.
Para não admitir suas falhas, são diversas as acusações da Igreja
Católica a Lutero, de louco a rebelde orgulhoso.
A preparação para a Reforma
No decorrer dos séculos, desde os tempos de Cristo, tem havido um desvio
daquilo que Jesus ensinou. Sempre se levantaram vozes em defesa da pureza do
Evangelho.
Apesar do zelo, sempre existiram aqueles que se desviavam, trazendo para
dentro da Igreja práticas de outras religiões. Esses desvios, a princípio em
número reduzido, foram aumentando a ponto de paganizar a Igreja,
transformando-a no que conhecemos hoje por Igreja Católica.
No começo, foi apenas a inclusão da hierarquia onde o papa era o líder
supremo; depois vieram o batismo para a salvação, a adoração de santos, e
outros, atingindo um patamar tal, que por volta do século XIV, a Igreja
Católica estava completamente envolvida no paganismo. Daí a salvação passou a
ser comercializada como qualquer outro objeto.
Enquanto o cristianismo romano se paganizava, muitas pessoas às quais o
nome "cristão" fora negado, lutavam para que a Igreja retornasse aos
princípios do Novo Testamento. Entretanto, ela já havia se institucionalizado,
e esses reformadores passaram a ser acusados de hereges. Geralmente eram
expulsos de suas congregações e perseguidos, pagando, muitas vezes com a vida,
pelo zelo cristão.
Até o século XIV, os protestos dessas pessoas foram abafados; porém com
o advento de uma nova mentalidade, que deu origem às transformações políticas,
sociais, científicas, literárias e mais, foram sendo notados. Naquele período,
as grandes descobertas marítimas, a invenção da imprensa, a descoberta do
maravilhoso mundo clássico da literatura e arte, até então perdidos, produziram
um despertar da natureza humana, que se processou de forma intensa e geral.
Esse período ficou conhecido como Renascença, movimento que produziu a energia
necessária para a revolução religiosa que se daria no século XVI.
O grande nome dessa revolução religiosa foi Martinho Lutero, monge
agostiniano. que, revoltado contra a venda de indulgências, levantou a bandeira
da liberdade religiosa frente à corrompida Igreja Católica.
Peregrinação espiritual
Lutero nasceu em 1483, em Eisleben, Alemanha, onde seu pai, de origem
camponesa, trabalhava em minas. A sua infância não foi feliz. Seus pais eram
extremamente severos. Durante toda a sua vida foi prisioneiro de períodos de
depressão e angústia profunda, quando aspirava pela salvação de sua alma.
Em 1505, antes de completar 22 anos, ingressou - contra a vontade de seu
pai, que sonhava com a carreira de advogado para ele - no mosteiro Agostinho de
Erfurt. Dos motivos que o levaram a tal passo, esse acontecimento foi decisivo:
duas semanas antes, quando sobremaneira o temor da morte e do inferno o
afligia, prometeu a santa Ana caso se salvasse se tornaria um monge. Portanto,
a razão principal, foi o seu interesse pela própria salvação.
Ingressou no mosteiro como filho fiel da Igreja no propósito de utilizar
os meios de salvação que ela lhe oferecia e dos quais o mais seguro lhe parecia
o monástico. Acreditava que, sendo um sacerdote, as boas obras e a confissão
seriam as respostas para suas necessidades, almejadas desde a infância. Mas não
bastava.
Embora tentasse ser um monge perfeito - repentinamente castigava seu
corpo, a conselho de seu superior - tinha consciência de sua pecaminosidade e
cada vez, por isso, tratava de sobrepor-se a ela. Porém, quanto mais lutava
contra esse sentimento, mais se apercebia de que o pecado era muito mais
poderoso do que ele.
Frente a essa situação desesperadora, o seu conselheiro espiritual
recomendou que lesse as obras dos místicos, mas não adiantou; então, foi
proposto que se preparasse para dirigir cursos sobre as Escrituras na
Universidade de Wittenberg.
A grande descoberta
É certo que, quando se viu obrigado a preparar conferências sobre a
Bíblia, Lutero começou a ver nelas uma possível resposta para suas angústias.
Em 1513, começou a dar aulas sobre Salmos, os quais interpretava
cristologicamente. Neles, era Cristo quem falava. E assim, viu Cristo passando
pelas angústias semelhantes às que passava. Esse foi o princípio de sua grande
descoberta, que aconteceu provavelmente em 1515, quando começou a dar
conferências sobre a Epístola aos Romanos. Lutero confessou que encontrou
resposta para as suas dificuldades, no primeiro capítulo dessa Epístola.
Essa resposta, no entanto, não veio facilmente. Não ocorreu de um dia
para outro. A grande descoberta foi precedida por uma grande luta e uma amarga
angústia.
O texto básico é Romanos 1.17, no qual é dito que o Evangelho é a
revelação da justiça de Deus, e era precisamente essa justiça que Lutero não
podia tolerar e dizia que odiava a frase"justiça de Deus".
Nela, esteve meditando dia e noite para compreender a relação entre as duas
partes do versículo que diz "a justiça de Deus se revela no
evangelho", e conclui dizendo que"o justo viverá pela
fé".
O protesto
A resposta foi surpreendente. Lutero concluiu que a justiça de Deus, em
Romanos 1.17. não se refere ao fato de que Deus castigue os pecadores, mas ao
fato de que a justiça do justo não é obra sua, mas dom de Deus. Portanto, a
justiça de Deus só tem quem vive pela fé: não porque seja em si mesmo justo ou
porque Deus lhe dê esse dom, mas por causa da misericórdia de Deus que,
gratuitamente, justifica o pecador desde que este creia.
A partir dessa descoberta, a justiça de Deus não passou mais a ser
odiada; agora, ela tornou-se em uma frase doce para sua vida. Em conseqüência as
Escrituras passaram a ter um novo sentido para ele. Inconformado com a Igreja
Católica, Lutero compôs algumas teses, que deveriam servir como base para um
debate acadêmico.
Naquele período, teve início, por ordem do papa Leão X, a venda de
indulgências por Tetzel, através da qual o portador tinha a garantia de sua
salvação. Não concordando com a exploração de seus compatriotas, Lutero fixou
suas famosas 95 teses na porta da Igreja (local utilizado para colocar
informações da universidade) do Castelo de Wittenberg.
As teses foram escritas acaloradamente com sentimento de indignação
profunda, mas com todo o respaldo Bíblico. E além do mais. ao atacar a venda de
indulgências, colocava em perigo os projetos dos exploradores, dentre eles, a
ganância do papa Leão X em arrecadar dinheiro suficiente para terminar a
construção da Basílica de São Pedro. Os impressos despertaram o povo e
produziram um sentimento de patriotismo, o que facilitou a Reforma na Alemanha.
A importância de Lutero para o protestantismo moderno não deve ser
esquecida. Foi ele quem teve mais sucesso na investida contra Roma. Foi ele o
grande bandeirante da volta às Escrituras como regra de fé e prática. Foi um
dos poucos homens que alterou profundamente a História do mundo. Através do seu
exemplo, outras pessoas seguiram o caminho da Reforma em seus próprios países,
e em poucos anos quase toda a Europa havia sido varrida pelos ventos
reformadores.
Lutero foi responsável por três pontos básicos do protestantismo atual:
a supremacia das Escrituras sobre a tradição; a supremacia da fé sobre as
obras; e a supremacia do sacerdócio de cada cristão sobre o sacerdócio
exclusivo de um líder. Humanamente falando, deve-se a Lutero um retomo à
leitura da Bíblia.
A Contra-Reforma e os jesuítas
Lutero teve de enfrentar o tremendo poderio da Igreja Católica que,
imediatamente organizou a Companhia de Jesus (jesuítas) para atacar a Reforma.
Vide o juramento dos jesuítas (livro Congregacional de Relatórios, página
3.362) que em resumo, diz: "Prometo na presença de Deus e da
Virgem Maria e de ti meu pai espiritual, superior da Ordem Geral dos
Jesuítas... e pelas entranhas da Santíssima Virgem defender a doutrina contra
os usurpadores protestantes, liberais e maçons sem hesitar. Prometo e declaro
que farei e ensinarei a guerra lenta e secreta contra os hereges... tudo farei
para extirpá-los da face da terra, não pouparei idade, nem sexo, nem cor...
farei arruinar, extirpar, estrangular e queimar vivo esses hereges. Farei
arrancar seus estômagos e o ventre de suas mulheres e esmagarei a cabeça de
suas crianças contra a parede a fim de extirpar a raça.
Quando não puder fazer isso publicamente usarei o veneno, a corda de
estrangular, o laço, o punhal e a bala e chumbo.
Com este punhal molhado no meu sangue farei minha rubrica como
testemunho! Se eu for falso ou perjuro, podem meus irmãos, os Soldados do Papa
cortar mãos e pés, e minha garganta; minha barriga seja aberta e queimada com
enxofre e que minha alma seja torturada pelos demônios para sempre no
inferno!"
Preocupada em conter o avanço dessas ideias, a igreja Romana iniciou
através do Tribunal da Santa Inquisição a perseguição mais infame e sangrenta
da história, onde, no caso da França, numa única noite, chamada de "Noite
de São Bartolomeu", três mil protestantes foram assassinados e seus corpos
jogados nas ruas francesas, com as bênçãos católicas. Muitos jesuítas, tais
quais espiões, levaram os ditos "hereges" às mais variadas torturas,
até a morte